05 November 2009 ~ 5 Comments

Processo de criação | Cia de Foto [2]

Na segunda colaboração da Cia de Foto, os meninos fazem um relato de como o projeto Caixa de Sapato está se desenrolando e entrando em uma nova fase.

Para acompanhar toda a série Processo de criação, clique aqui. Entrevista com a Cia de Foto no Olhavê, aqui.

Fotos: Cia de Foto

A nossa pesquisa começou com um espaço, mais precisamente com uma Caixa de Sapato cheia de fotos. Uma homenagem a um objeto que funciona como um veículo espontâneo, popular e afetivo para a fotografia.

No decorrer do trabalho, o que seria um objeto, uma Caixa de Sapato, se fez virtual. Esse cenário que construímos para colocar nossas fotos foi sendo relacionado aos espaços que compõem uma fotografia. Daqui, passamos a tomar uma consciência diferente das nossas imagens, que incorporaram esse cenário. Tornaram-se então, um espaço que cresce ou se omite pela conveniência de quem está vendo. E até o que não está presente, por vezes aparece. É o lugar que em uma fotografia, se faz como o mais silencioso, porém, se é pelo silêncio que um discurso aparece em uma imagem, o espaço passa a ser prolixo.

Esse cenário virtual virou repertório para uma série.

E é nessa fase que estamos agora, na etapa que chamamos de Hold a Sec!

Esse título é uma ilustração de uma pausa, de um “espere um pouco”.

Parar um instante. Segurar por um segundo esse tal processo de criação.

E esse tempo entrou para o debate. Fotografar passou a durar e passamos a fazer cliques de não instantes. As imagens se formaram enquanto não se via, em um segundo de não apreciação. Longas exposições que fazem o mundo voltar em outras cenas. Essa duração é a nossa ferramenta de construir um lugar novo. Agora, toda vez que fotografamos, um instante rotineiro se perde e volta em 1 segundo. Recriamos assim um espaço em nossas vidas, através de momentos que somem por um tempo. É que quando esse clique acontece, nos faz cego, o que a câmera nos mostra é um preto. E essa escuridão, essa ausência temporária do assunto, é o que faz com que um próximo momento seja mais decisivo. E isso vai determinando o movimento de nossas cenas, transformando-as em instantes não precisos.

Hoje em dia, o trabalho do Caixa de Sapato resulta desse tempo que fica nas imagens. Um espaço de um mundo criado pela engenharia da extensão desse segundo. Um relento, para se fazer uma fotografia intempestiva, para termos uma existência que se cria na duração.

O ponto claro de nossa pesquisa é a ausência de algo decisivo. É a formação de um espaço por uma duração e, o que queremos nesse trabalho, é confirmarmos uma construção de existência. A nossa pesquisa foi para o espaço e esperamos que o cenário discuta. Temos olhado assim para nossas fotos, por um vácuo sem hierarquia de distâncias. O assunto se desfaz em planos que são manchas e vestígios de uma imprecisão.

O cenário do Hold a Sec! são marcas e sombras. São sobreposições e essas coisas que passam a existir na vida quando se faz uma fotografia. Esse tanto e esse jeito de existência que se coloca em um espaço congelado.

CiadeFoto_Caixa003

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5 Responses to “Processo de criação | Cia de Foto [2]”

  1. clicio 5 November 2009 at 10:28 am Permalink

    Bastante interessante.
    O minuto preto, a soma de instantes que se perdem,a fragmentação do tempo, isolado e deformado pela longa exposição transforma o não-visto em algo novo, inédito, também não visto como instante, mas sim em continuidade estática.
    Como bem diz o Pio, instigante.

    Clicio

  2. Ivan de Almeida 5 November 2009 at 11:32 am Permalink

    A última foto é sensacional.
    O assunto idem. Volto mais tarde para comentar com calma.

  3. Arnaldo 5 November 2009 at 1:22 pm Permalink

    Carácoles, muito boa também essa fase. O resultado tá sensacional. Parabéns.
    Me lembrou a velha historinha de uma foto ser muito boa e dizerem que parece uma pintura. E quando a pintura é muito boa dizem se parecer com uma foto. Fico com o hibridismo das duas.
    ab,

  4. Ivan de Almeida 5 November 2009 at 6:25 pm Permalink

    O mais interessante nissso tudo, além do resultado, é claro, é ser um modo de fotografia que rompe com a mimética do olho, isto é, com a idéia do que seja a visão natural. Na verdade, a equação tem sinais trocados, pois a câmera não mimetiza o olho, é o inverso: nossa descrição do processo visual que é decalcada do funcionamento da câmera escura -conduzindo a grandes e persistentes erros na compreensão do processo perceptivo.

    De toda forma, a longa exposição rompe com o a idéia da visão como ato instantâneo, aqui brincando um pouco com o dono do Blog, como um ato de “olha e vê”, entendido como uma apropriação instantânea e positiva, a única que o olhar produziria.

    E esse rompimento deixa sugerido que há uma outra natureza da fotografia diferente da reprodução do Real. De que Real falo? Bem , o Real que imaginamos existir e que seria mera soma da perspectiva cônica com o olhar instantâneo que tudo vê em uma só visada.

    Mas a câmera, registrando o tempo -ela sempre registra o tempo, mas nas velocidades normais parece registrar o instante- evidencia que sequer aquele Real é fiável. Quem vê de fato um splash como uma câmera vê? Ninguém. E ninguém vê o tempo assim, como nas fotos acima.

  5. Dirceu Maués 21 January 2010 at 11:40 pm Permalink

    A história da fotografia nos acostumou a pensar em fotografia como suspensão do tempo em um recorte mínimo: o instante, sempre o instante. Mas não é de hoje que temos fotógrafos, artístas e cientístas explorando outros campos. Em texto de Arlindo Machado, Anamorfoses cronotópicas ou a quarta dimensão da imagem, ele discute a inscrição do tempo na imagem, e cita alguns desses figuras: Étienne-Jules Marey, Andrew Davidhazy, David Hockney e Norman Mclaren. Encontramos essa suspenção, essa duração, em muitos trabalhos com fotografia pinhole. E foi partindo de trabalhos com pinholes que o fotógrafo Michael Wesely chegou a realizar uma das mais radicais experiências nesse campo: Fotografias com tempos de exposição de dois anos para captura de uma única imagem.


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