Este artigo aborda, através da antropologia visual, os retratos de família que registram a presença das amas-de-leite e suas significações no âmbito simbólico, social e cultural da vida privada da sociedade patriarcal-escravocrata canavieira de Pernambuco no final do século XIX e início do XX.
Em Cadernos Etíopes, a vulnerabilidade de J.R. Duran é contundente. Nitidamente inclinado a mostrar um tipo de trabalho maduro, sério, pretensamente antropológico, tenta ser reconhecido pelo gênero documental da fotografia que, em sua concepção idealizada, estaria inevitavelmente em plagas distantes, inóspitas e com pessoas bem, mas bem diferentes das do seu métier. Suas imagens estão simbolicamente enclausuradas, não respiram atreladas ao seu estilo estetizante.
Este artigo aborda o conteúdo antropofágico de documentos iconográficos dos séculos XVI e XVII. Propomos compreender a vertente antropofágica existente na representação da gente do Brasil sob a perspectiva da Antropologia Visual. Nesse sentido, relacionamos a visão de mundo a partir da apreensão histórica que envolve o conceito de antropofagismo, assim como o imaginário visual vigente naquele período.
Nos primeiros encontros, o que prevalecia era o silêncio. Sentia que a vida deles estava submersa sob rígida camada de convenções sociais de uma época. As diferenças eram muitas. Basicamente, este mundo não pertencia a um território físico, mas à construção idealizada de um contexto cultural bastante próprio. Ao vê-los, era claro a dinâmica daquela realidade. Quase que postos em nichos simbólicos, firmes em seus papéis e propósitos.
A princípio, o legado pictórico de Albert Eckhout desencadeia duas vigorosas proposições: uma, de que a imagem incidial é proposta pela observação participante do artista em seu meio no qual se encontrava, ou seja, pela racionalidade em estabelecer uma forma para a sua visão de mundo. A outra, se volta para a idealização produzida pelo ato de criação, no qual se obtém a intencionalidade do olhar, a construção de uma imagem-conceito que se configura a partir dos nativos brasileiros
Nem sempre o que acreditamos ser uma simples questão de aparência e vaidade, é algo tão superficial ou frívolo. É certo que, atualmente, com este mundo acachapante das celebridades, não é difícil considerar que o registro fotográfico tornou a individualização da pessoa retratada tão banal que vemos, gradativamente, a construção da imagem de um indivíduo-objeto. E o que vem à mente é apenas vaidade, vaidade, pura vaidade. Estabelece-se assim, a necessidade da aparência de alguns que alimentam a curiosidade de outros. E nada preenche nada.
A partir de uma análise sócio-cultural da iconografia pesquisada, remontei narrativas simbólicas e pautas sociais determinantes para a aristocracia canavieira. De maneira que abordei as representações visuais e conseqüentemente seus valores sociais – verdadeiros índices, quanto a questões de parentesco, gênero, cânones morais, religiosidade, costumes e relações interétnicas. Entretanto, ao discutir sobre identidade (algo indelével aos retratos), se observa a alteridade entre dominantes (senhores de engenho) e dominados (escravos); de como se constrói a imagem do outro e portanto como os paradigmas estéticos são elaborados enquanto mecanismo de distinção social, como também expressão de poder e ideologia
As sutilezas inerentes às diferenças de cada indivíduo reverberam graças ao estilo realista de traços rápidos de Ploeg, assim como às pinceladas fortes, marcantes e direcionadas – quase um lampejo impressionista. Dessa maneira, a composição de seus “nativos” conota a fragilidade da dignidade humana em significativos índices estéticos.a
Ao conviver durante algum tempo estudando a obra eckhoutiana, tornou-se evidente a premência cultural que o repertório iconográfico dos artistas europeus viajantes em terra brasileira traz à lume para as Ciências Sociais. No entanto, a pesquisa concentra uma ínfima parte no campo inesgotável do conhecimento. Contudo, são as pequenas admirações que fomentam o pensamento, acrescentando-se assim considerações e reflexões a trabalhos já existentes, numa espécie de árduo processo de aprofundamento do objeto em comum enfocado.