Com os olhos bem abertos podemos muito bem sonhar. Nem sempre precisamos fechar os olhos para vivenciarmos histórias, sensações, idílios, fugas, desejos, dores, solidão, alegrias, desencontros, vazios, exuberâncias, esperanças… O mundo através da fotografia nos permite transcender as supostas certezas da realidade; é quando a criação artística perturba os paradigmas e faz da ideia o começo da invenção de novos mundos.
Há experiências visuais que nos fazem tomar um rumo errante, divagar sobre a materialidade do que vemos e sentimos. É um fio de memória, bem próximo do que acumulamos ao longo de vivências, nas quais o espírito acompanhou nosso olhar em momentos especiais. Viajamos com recorrência neste processo de percepção, latência e remição. Diante da obra realizada, a fruição poética nos enlaça em diversos graus de encanto e inquietação.
A investigação artística, presente nas obras nesta exposição, encontra convergência acerca do campo amalgamado de questionamento conceitual, do estatuto da imagem e da narração efêmera da documentação. De certo, estas conotações estão abertas e nos ajudam a aprofundar o uso da linguagem fotográfica com expressão profunda do olhar, pelo olhar e, sobretudo, sobre o olhar.
O livro Peso Morto, de João Castilho, apresenta questões muito próximas das possibilidades de caminhar entre a potência física de um livro, da irredutibilidade simbólica do seu conteúdo e da contemplação estética que se espera encontrar nas imagens que nele estão. Esses pontos são factíveis em qualquer obra como uma tradição.
A fotografia da morte potencializa retóricas. Além de possuírem representatividades na constituição das relações sociais, dos estágios do luto, do afeto, assim como dos fatores que apreendem o diálogo entre círculo de parentes e seu ente que morrera. Assim, a fotografia mortuária intrínseca à história da fotografia trabalha com questões íntimas, de guarda e de memória. Sobretudo, do registro da última imagem.
Era para ser um simples encontro… O sujeito dele: Júlio dos Santos. Iria conversar um pouco com ele, assistir à sua oficina. Entender um pouco mais sobre fotopintura. Sua especialidade. Já sabia que seria uma experiência enriquecedora. Apreciaria as fases desta técnica como a reprodução, revelação, ampliação, contorno, retoque, roupa e afinação. Afinal, ver in loco a imagem se transformar pelas mãos de quem ainda realiza fotopintura seria quase como presenciar uma insurgência. E tudo isso me interessava por motivos empíricos, teóricos e históricos.
Os retratos de Carmen Miranda denotam muito mais do que um simples registro fotográfico da artista. A expressão feminina é tematizada através da força plástica dos lábios. Carmen Miranda criou e tornou o seu sorriso em código a serviço de sua arte. E, portanto, estabeleceu uma fusão entre a boca que vira ícone – de seu tempo, de suas conquistas e vicissitudes – e a simbologia que dela apreendemos.
Ultimamente, os retratos que impregnam o nosso entorno visual tendem a embaçar o olhar e provocam uma sensação de falta de profundidade. Aqui, o sentido profundo vai além da perspectiva pictórica. É sobre a fruição a que me refiro. Cada vez mais, tento encontrar na fotografia de corpo, retratos que expurguem o prosaico e que mostrem o outro de maneira contundente suas próprias representações.
Tenho questionado sobre rupturas no fazer fotográfico, as dinâmicas contempôraneas, o relativismo no caráter da identidade de quem aperta o botão da câmera. Mas também sobre o antes, o depois, o entorno, as associações, os desmembramentos temáticos, a imagem-signo que não é mais absolutamente real e sim propósito, a partilha do ato fotográfico…