Tempo anônimo: aquele que não me pertence, que desconheço. O tipo de tempo que não cabe em mim e que, tampouco, está em nós. O outro retratado – auto-representação, personagem contido na pose – guia a problemática do tempo.
Às vezes, acordo com sede.
Uma sede diferente.
Do tipo que imaginamos que os outros nos supra.
Talvez, o cansaço, o ritmo da vida e das imagens me faça esperar que o outro me atinja, me toque de alguma maneira.
Tenho absolutamente certeza disso: é sede.
Ultimamente, padeço por ter vontade, desejo, esperar.
Quem já não buscou seu passado em papéis emulsionados guardados por parentes próximos e distantes? Quem já não lamentou por não encontrar o registro de fases e fatos de sua história? As imagens se configuram como relação íntima de pertencimento, identidade e sentidos, desde o surgimento da linguagem fotográfica no século 19.
Costumo abrir livros de fotografias e contemplar as imagens fotográficas. Após esta “primeira leitura”, me detenho às referências textuais, ao processo criativo, aos conceitos trazidos pela produção do autor. Preciso sentir a obra em seu todo, passar pelo rito de hipóteses, sensações, deslocamentos, aproximação com outros artistas, para ao final observar o avesso, os fenômenos que se apresentaram para o autor e que se transformam aos olhos do observador diante dos signos.
Quando Frida Kahlo morreu, Diego Rivera, seu marido e também pintor, cerrou o que considerava de mais íntimo na casa onde ela havia nascido e morrido: o banheiro. Tomou assim a dimensão de um não lugar, o relicário estanque, guardado por ordem expressa. Até que um dia, a fotógrafa entrou serenamente. Ela e a câmera fotográfica. Somente as duas. Prontas para romperem a morte.
Essa camada sou eu. A superfície vocifera sempre diante do sol. Inclemente. Lindo, perfeito para brincar. A luz, sempre a luz… Não me toque porque me dói.Talvez, pela ausência. Pelo que precisaria ter para não ser. As camadas são mais subjetivas do que aparentam. Engano achar que são apenas – e tão somente – matéria, algo físico…
A produção de Castilho revela-se das mais instigantes no campo da fotografia experimental. De tão profusa e profícua, torna-se flácido conceituá-lo. Documental imaginário foi uma definição apropriada por ocasião do trabalho Paisagem Submersa. E, de fato, João Castilho insere-se cada vez mais na abstração, na subjetividade e na construção da imagem como narrativa esgarçada. A inquietação dos mundos criados por Castilho precede o ato fotográfico.
A fotografia da morte potencializa retóricas. Além de possuírem representatividades na constituição das relações sociais, dos estágios do luto, do afeto, assim como dos fatores que apreendem o diálogo entre círculo de parentes e seu ente que morrera. Assim, a fotografia mortuária intrínseca à história da fotografia trabalha com questões íntimas, de guarda e de memória. Sobretudo, do registro da última imagem.
Se lermos e adentramos nos enredos propostos por determinado escritor, sua imagem será impregnada pelo fenômeno que subliminarmente cria uma norma, um corpo para o escritor. Quiçá não seja a mais justa das projeções sobre o outro. O sujeito que idealizamos e que num fluxo inverso inventamos enquanto personagem. Contudo, estamos capitulando o nível da imaginação que codifica elementos da poesia, da prosa, do romance, da ficção ou do realismo, das epistemologias, das narrativas e de atmosferas poéticas autorais.