Tentemos imaginar a magia da descoberta de algo raro ao abrir uma gaveta que não é nossa. Ou do encantamento ao afastar a poeira de uma fotografia e ela de repente parecer flutuar. A exposiçãoOlhar Guardado: fotografias de Lula Cardoso Ayres, de certo modo, remonta para nossa contemporaneidade o fenômeno da memória e do tempo a partir do registro fotográfico de realidades distantes. Poderiam ser quaisquer fotografias, mas também não o são. O fotógrafo era Lula Cardoso Ayres (1910-1987), pernambucano de Rio Formoso, um dos mais importantes artistas brasileiros.
Imaginar caminhos é como sonhar. Um ato descontínuo, ambíguo e ilusório. Ao construir paisagens, pensamos na idéia, quase sempre, de um território desejável. A imagem que formulamos destoa da natureza como ela se coloca para nós. Pensar por imagens é tracejar a forma de um tempo e de um espaço intermediários, que ficam no meio, no hiato da sugestão, de narrativas imaginárias, pelas quais apreendemos a subjetividade dos lugares.
As imagens do ensaio AutoDesconstrução são íntimas, sutis, inquietas. Não por serem femininas, mas, muito mais, por terem sido determinadas pela dúvida, pela coragem em cair no limbo complexo de ser ao mesmo tempo autora e tema. Nesse processo, a beleza e a suavidade do corpo nos levam para um imaginário repleto de subjetividade e de novas percepções. Fotografias que silenciam o prosaico e, sutilmente, conotam o frescor no não-visto.