











Antes do começo, se vê de uma forma. Antes do começo, se sente de uma maneira. Antes do começo, pensamos de um modo que só parece existir aquele.
Antes do começo, é o recuo, a curva que ainda não contornamos. O antes é a fotografia que surge e nos guarda na imagem. O começo é quando passamos a lidar com o mundo pela fotografia. Quando encontramos em sua longevidade a cavidade de afetos, significados, conflitos, ideias, algumas verdades, um punhado de mentiras (ou o inverso), a compreensão de uma época, moldes de brincar de ser, de representar sempre.
Nesse mundo visual, o tempo não é linear, mas sim da ordem de naturezas diversas que alinhavam a memória. Passamos então a ter a impressão de dissolver-se em imagens. A fruição passa a ser uma grande experiência, a iminência da passagem. Sempre um começo. A fotógrafa Mariana David de gesto minucioso vai de uma ponta a outra desta curva. Propõe visões distintas pela fotografia.
Incipiente, talvez determinarmos o trabalho de Mariana por gêneros e funções em seu modo de lidar com essa linguagem. Então, por substituição, consideremos poesia e estratégia para situarmos modos pelos quais ela processa a expressão fotográfica.
Em Antes (2010), há o gesto solto, a paisagem baça. Coisas poucas, coisas delicadas. Algo que ocorre involuntariamente em sincronia com o que virá depois. A delicadeza e os contornos subjetivos da narrativa deste trabalho desvelam o ato de perceber como manufatura do olho. É relacional ao grau de doação que você comparte com as imagens.
Em Ausências habitadas (2011), Mariana David, insere a estratégia conceitual do desconforto, da entrevisão por meio da paisagem que compõe os indivíduos e suas ramas vermelhas. O que fizera de rarefeito em Antes é aqui composto de situações incompatíveis para abrigarem embates entre representação, interferência e retórica contemporânea. Ou seja, um modo seu, peculiar, de chegar na outra ponta da curva, onde podemos parar para pensar no quão fértil é lidarmos com o mundo através desse encontro. Quando começamos a deslocar por símbolos, quando a fotografia começa a fazer sentido para cada um de nós.
Por Georgia Quintas, março de 2012.