Marco A. F.

Um arquivo de fotografias familiar passa por distintos procedimentos, tradições e percepções. Atendem a desejos, objetivos e funções. Descrevem certezas por um momento, mas instauram a dúvida em outros tempos. Pensar sobre si mesmo, através dos retratos de infância, pode traduzir-se dramaticamente em sentimento de ausência por uma vida narrada em imagens que não circulam em nossa memória.

Então, uma fissura sem sentido surge no imaginário dos seus próprios retratos. Logo que vi estas doze fotografias, colocadas na mesa por Marco A. F., de uma maneira que parecia buscar certa aritmética, pensei: “É como se ele tentasse lembrar um sonho…”. E em poucos segundos, estava diante de um mosaico litúrgico, repleto de buscas e caminhos. Com voz pausada, o autor disse: “São fotos da minha infância”. O título? Esse não sou eu.

Compreensivelmente, por um lado, há os que se apropriam do álbum de família como documento (em ato de atestação), do outro, há os que escavam essas imagens pelo ímpeto da subjetividade (da dicotomia de pertencer, mas de não lembrar). Para estes últimos, pesquisar, pensar e refotografar é compreender a fragilidade da imagem em nossa identidade.

Justamente assim, em Esse não sou eu, a escrita da história do protagonista é suavemente redefinida, ou melhor, reconduzida. A vivência em pensar sobre tais imagens é aproximada nos enquadramentos, editada cuidadosamente, como se tentasse enxergar o mistério de ter sido entre uma e outra fotografia.

O trabalho de Marco é lindo, não só pela plasticidade, pelo tom magenta que nos desloca para um outro espaço, mas por nos fazer acreditar que algo guardado com amor nos ajuda a compreender quem somos. Lewis Carrol, numa missiva para certa menina, escreveu: “Se você acredita em tudo, começa a fatigar os seus músculos-do-acreditar, e depois fica tão cansada que não é capaz de acreditar nas verdades mais simples”. “Esse não sou eu” faz parte dessas verdades mais simples.

Por Georgia Quintas, março de 2011.

© 2009-2012 | Olhavê - Alexandre Belém e Georgia Quintas | RSS                                                            Powered by WordPress | Theme by Graph Paper Press + Sidclei Sobral