











Muito antes deste texto ser escrito, troquei alguns bons e-mails com o fotógrafo Gilvan Barreto. Tomada pelo interesse de entender o processo pelo qual Gilvan vive sua produção fotográfica, cheguei à premissa que muitas vezes a fotografia é como uma fronteira da imensidão de nós mesmos.
Gilvan Barreto – pernambucano de Jaboatão dos Guararapes, radicado no Rio de Janeiro – revela o desassossego da criação, da vontade em despertar imagens fotográficas que solfejem ares autônomos de elementos simbólicos, inerentes ao exercício do movimento de pensar e propor particularidades reflexivas do que vivemos e sentimos entremeados pela fotografia. No que pese seus aspectos transformadores em criar elos com imagens íntimas, bem à parte do que o faz ser um reconhecido e experiente fotógrafo no meio editorial, Gilvan parte para novos encontros.
Ultimamente, Gilvan experimenta imagens. Em Líquido, retratos congelados (Fotos 8~12), os elementos de busca estão no quão inefável é nossa relação sobre a retenção das coisas e dos amores. Partindo de imagens familiares, ele traça um esquema árduo de apreensões desejantes. Seja por uma tentativa física de reter, congelar a sua memória afetiva do aconchego simbólico recriado pela força do imaginário. O gelo é trabalhado por Gilvan, metaforicamente aqui, pelo viés da conservação, por estancar um processo de tempo, perda, vida e afetos. Mas é também um elemento ambíguo pois revela a fluidez incontornável do gesto, da inocência em conduzir a lembrança para uma condição subliminar da imagem fotográfica apropriada de seu ábum de família. O que vemos, não é o documento dos seus pais, mas entretanto a pertinência de reconduzi-los para si, em seus pensamentos. Toda memória se alimenta de imagens.
Em Fronteiras (Fotos 1~7), guiados por uma fita vermelha, entramos e saímos de limites. Como que um fio trouxesse vestígios de espaços (talvez sonhados, talvez possíveis). Dissociado dos referentes mais mundanos, os quais cercam nossa percepção, o ensaio abstrai o próprio tema. Os signos incorridos por Gilvan flutuam entre o lúdico e o discurso da aderência pelo encanto da poesia de uma simples fita vermelha. O que recai sobre a estética, recai também em busca de suas margens, do sentido de si envolto em espaços. O ensaio lança, assim, não apenas imagens.
Por entre a análise processual dos códigos utilizados por Gilvan, seria bem possível acreditarmos se, por ventura, nos dissesse que a fita vermelha fizesse parte de coisas vividas. Com sutileza, a fita ganha propriedades e sentido. Somos envolvidos por esse eixo das tentativas em trazer territórios subjetivos e pessoais.
Porém, simplesmente, Gilvan comprou a fita vermelha. Determinado, resolveu pensar em suas fronteiras geográficas, físicas, desejadas e sonhadas. Num vislumbre de dialogar com um repertório singular que se convertesse em simbólico, a fita passou a ser um dispositivo de tentativa. Vale pensar nessas imagens como adormecidas num cômodo nobre onde Gilvan aguardou por um tempo para chamá-las. Belo processo de inquietação fotográfica.
Por Georgia Quintas, julho de 2011.